domingo, 19 de junho de 2016

A FILOSOFIA NO ENSINO MÉDIO E FUNDAMENTAL

A FILOSOFIA NO ENSINO MÉDIO E FUNDAMENTAL

*Mauro Ferreira de Souza é Bacharel em Filosofia e Teologia (Universidade Mackenzie), Direito (UNIB), Especialista em Filosofia Contemporânea e Historia pela (Universidade Metodista) e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Mackenzie São Paulo. Doutorando em Filosofia.
          Currículo CNPQ:  http://lattes.cnpq.br/6652104071439857

O papel da Filosofia é estimular o espírito crítico, portanto, ela não pode assumir uma atitude dogmática nem doutrinária; deve apresentar, de maneira plural, teorias diversas e estimular a discussão, porém de maneira sistemática e com método. Nada existe sem um método adequado e progressivo. É justamente esse potencial de diversidade de abordagens e de variedade temática que permite o exercício da função crítica, da dúvida, da experiência e lembrando o método socrático, o da interpelação. É nesta perspectiva que defendemos que os alunos do ensino fundamental, especialmente nas últimas três séries deste, tenha contato ainda que menor com a Filosofia.

Historicamente, o ensino da filosofia começou com os Jesuitas desde o estabelecimento da colônia portuguesa no século XVI.

Em 1961, com a lei 4.024/61, a disciplina deixa de ser obrigatória e torna-se complementar, visto que, por esta razão, o ensino desta disciplina começa passar por um processo de declínio quanto a sua valorização. Durante o Regime Militar, a partir de 1971 com a Lei 5.692/71, definiu-se no ensino secundário o objetivo de proporcionar o desenvolvimento das potencialidades que qualificassem os alunos para o trabalho e não para a formação consciente do exercício da cidadania. Com estas exigências, o governo suprimiu a filosofia do ensino secundário, encontrando outras disciplinas relacionadas ao civismo para substituí-la. Desta forma, a disciplina de filosofia praticamente desaparece dos currículos escolares.

A Lei mencionada  criou as disciplinas: Educação Moral e Cívica e, Organização Social e Política do Brasil (OSPB), baseada na Lei 5.692/71, que instituiu obrigatoriamente o ensino profissionalizante. Na época valorizava-se uma formação técnica e não humanista. As duas disciplinas eram encaradas como 'perigosos instrumentos', capazes de formar sujeitos "subversivos", representados por movimentos populares, uma vez que a Filosofia garante a possibilidade de não aceitar respostas prontas e impostas, desenvolvendo, assim, o raciocínio lógico e a construção de argumentos inteligentes. Já a Sociologia, permite uma visão sistemática sobre a realidade nos diversos âmbitos, reforçando a ideia de que todos são agentes de transformações sociais.

Por outro lado, é importante que o programa não seja restritivo, mas contemple uma multiplicidade de temas sempre com preocupação de permanecer dentro da especificidade dos temas genuinamente filosóficos. Aliás, desenvolver uma didática adequada para os alunos na faixa etária do ensino fundamental.

O Estudo específico da Filosofia como disciplina obrigatória no Ensino Fundamental tem um papel de tamanha importância, pois é a tarefa pedagógica de fundamentar o pensamento para evolui-lo no Ensino Médio, tendo em vista que no Ensino Médio a Filosofia já é uma realidade, segundo a Lei 11.684/2008[1] em consonância com a Lei 9.394/96[2] Diretrizes e bases da Educação Nacional.

A reabilitação da Filosofia no Ensino Fundamental e Médio, tem como objetivo contribuir com a restituição do rigor do pensamento e com a formação de um repertório cultural mais crítico, que saliente momentos marcantes do pensamento ocidental e das instituições construídas no seu contexto. Também, cumpre-lhe despertar habilidades e resgatar a cidadania enquanto participação consciente, crítica e construtiva no interior do corpo social.

            O estudante de Ensino Fundamental deverá estudar tópicos relativos à ética e à filosofia política, tendo oportunidade de conhecer e discutir algumas idéias fundamentais da formação de nossa cultura política pública, como as idéias de democracia, legalidade, poder, dever moral, liberdade e virtudes.

            Assim, filosofia habilita o homem a conhecer; a formação humanista, que refina a sensibilidade humana, e a formação ética, da moral, da cidadania que se ocupa com a conduta humana. A Filosofia, portanto, pergunta pelo sentido integral da educação do homem.


LIVROS  DIDÁTICOS  INDICADOS E REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. 4a ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

ARANHA, M. L. A.; MARTINS, M. H. P. Filosofando. Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 2003.

BOSCH, P. Van Den. A filosofia e a felicidade. Trad. Maria Ermantina Galvão. E. M. São Paulo: Martins Fontes, 1998. CHALITA, G. Vivendo a Filosofia. São Paulo: Ática, 2006.

CHAUÍ , M. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2003.

___________. Filosofia. São Paulo: Ática, 2000. (Série Novo Ensino Médio)

CORTELA, M. S. Não nascemos prontos!Provocações Filosóficas. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2006.

FEARN, N. Aprendendo a Filosofar em 25 lições: Do poço de Tales à desconstrução de Derrida. Trad. Maria Luíza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

FIGUEIREDO, V. (Org.). Seis filósofos na sala de aula. Platão, Maquiavel, Descartes, Voltaire, Kant, Sartre. São Paulo: Berlendis e Vertechia Editores, 2006.

GAARDER, J. O Mundo de Sofia. Romance da História da Filosofia. Trad. João Azenha Jr.. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

____________. O Dia do Curinga. Trad. João Azenha Jr.. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

GIKOVATE, F. Os sentidos da vida: uma pausa para pensar. 2a ed. Reform. São Paulo: Moderna, 2004. (Coleção Polêmica)

LEBRUN. O que é poder. Trad. Renato Janine Ribeiro e Silvia Lara. 12a ed. São Paulo: Brasiliense, 1992.


MARCONDES, D. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. 7a ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

________________. Textos Básicos de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

NICOLA, U. Antologia ilustrada de Filosofia: das origens à idade moderna. Trad. Maria Margherita

PEGORARO, O. Ética dos maiores mestres através da história. Petrópolis, R.J: Vozes, 2006.

SAVATER, F. Ética para meu filho. Trad. Mônica Stahel. São Paulo: Martins Fontes, 2005.





[1] Art. 1º O art. 36 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar com as seguintes alterações:  Art. 36.  IV – serão incluídas a Filosofia e a Sociologia como disciplinas obrigatórias em todas as séries do ensino médio. Art. 2º  Fica revogado o inciso III do § 1o do art. 36 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996.  Art. 3º  Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Brasília,  2  de  junho  de 2008
[2] Altera o art. 36 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir a Filosofia e a Sociologia como disciplinas obrigatórias nos currículos do ensino médio.

terça-feira, 31 de maio de 2016

A CRISE DA ÁGUA E O CAOS NO MEIO AMBIENTE

Imagem de um catador na represa Billings

Infelizmente estamos vivendo a uma crise ambiental de proporções nunca vistas. Atrelado a isso, temos a crise da água não somente no estado de São Paulo, mas no Brasil e no mundo. As represas de abastecimento do Estado de São Paulo em 2014 chegaram a níveis alarmantes e tivemos um racionamento sem precedentes.

Alguns anos atrás pouco mais de 20 anos, eu passava próximo das represas Bilings Guarapiranga e a curtia bem próximo das avenidas com as margens saudáveis e até pescadores. Hoje tenho saudades daquelas imagens. As margens já estão a cetenas de metros e o que se vê é sujeira e degradação. Mas como chegamos a este ponto.



O PROTOCOLO DE KIOTO E O MEIO AMBIENTE
Infelizmente o Protocolo de Kyoto não freou o aquecimento global!
O papel do chamado "Protocolo de Kyoto" firmado em 1997 para ter sua primeira fase de metas de redução de emissão de gazes nocivos ao planeta, não surtiu efeitos positivos até então.
Pelo Protocolo, os 37 países mais ricos do mundo signatários daquele acordo são também os que estão mais poluindo o planeta pela emissão de CO2.
China, EUA, União Européia, Rússia e Japão, estão na ordem dos maiores emitentes de poluentes. Os americanos até hoje resistem às metas de Kyoto, e, somente agora estão se discutindo uma proposta no congresso de limitar voluntariamente as emissões em 5% até 2020. Já os europeus querem enterrar Kyoto, dizendo que o Protocolo não resolveu o problema do aquecimento global, tanto assim que continuam aumentando a concentração de CO2. Assim, pode verificar que o problema  não está no protocolo que os governantes assinaram, e sim em não controlar as emissões.  
A degradação ambiental está aumentando cada vez mais no mundo. Infelizmente o Brasil a despeito de ter a maior floresta do mundo e a maior bacia de água do planeta, atualmente   já está entre os países que mais polui ou degrada o meio ambiente.
O Brasil tem contribuído também para o aquecimento global. Esta um uma constatação de estudos da  Universidade de São Paulo e da PROTOCOL-GHG (Agência ou Instituto que estuda o efeito estufa no mundo. Dados estatísticos também são oferecidos pelo Centro de Estudos em sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas, que recentemente divulgou uma pesquisa de que o Brasil está entre os 20 países que mais contribuiu em 2008 para o aquecimento global. A emissão de Co2 das empresas brasileiras juntamente com o desmatamento e as queimadas representam boa parcela da emissão de gases de efeito estufa. Por outro lado, o gás metano (CH4) que até pouco tempo parecia inofensivo, foi constatado que é o mais perigoso. é também gás metano a flatulência (gases e defecação) de animais, especialmente ovinos, bovinos e suínos. 
O problema é percebido principalmente nas grandes cidades, como São Paulo que tem uma região metropolitana de mais de 20 milhões de pessoas. As conseqüências logo se sente pela respiração e pelos dias mais quentes nos últimos 10 anos.
Portanto, diante de uma realidade tão drástica, o Brasil pode muito bem contribuir para melhorar as condições climáticas do mundo. É necessário cuidar dos rios, desenvolver desde cedo a educação ambiental, implementar projetos de redução do desmatamento, e, todos, governo e sociedade civil, grupos empresariais promoverem o desenvolvimento sustentável tendo como princípio irrevogável a preservação do meio ambiente.

 *Mauro Ferreira de Souza é Bacharel em Filosofia e Teologia (Universidade Mackenzie), Direito (UNIB), Especialista em Filosofia Contemporânea e Historia pela (Universidade Metodista) e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Mackenzie São Paulo. Doutorando em Filosofia
          Currículo CNPQ:  http://lattes.cnpq.br/6652104071439857

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A HUMILDADE DOS REFORMADORES

Reformadores do Século XVI – homens que não temeram

 o mundo, mas temeram à Deus


                  Calvino, Farel, John Knox, Lutero entre tantos outros...homens que, movidos pelo Espírito Santo de Deus, mudaram uma situação em meio a um mundo novo (onde residia a exploração do homem), porém, praticando coisas velhas, que Paulo (o apóstolo missionário), Profetas do Antigo Testamento, o próprio Jesus Cristo, deixaram como premissas para a verdadeira reforma espiritual que o homem necessitava naquela época, como também a é cinco séculos depois.

Esses homens (século XVI) não podiam suportar o problema do outro, nem podiam resolver a dificuldade em que se encontravam, mas uma coisa eles fizeram: suportaram uns aos outros em amor, compartilharam não as vitórias apenas, mas compartilharam todas as dificuldades que um servo de Deus passa ao testemunhar as verdades sobre a corrupção humana e sua residência.

Eles carregavam um ao outro no momento onde parecia não existir mais forças para prosseguir, pois tinham um objetivo a realizar.

Ilustração FILME “SENHOR DOS ANEIS” – passagem da montanha

Foram servos e não se vangloriaram em função de seus comportamentos e atitudes fortes perante a Obra que haviam de realizar, pelo contrario, sabiam reconhecer sua falibilidade e sua suficiência que se encontrava em Cristo.

Ilustração FILME “SENHOR DOS ANEIS” – passagem da coroação do rei

Calvino em uma de suas frases disse: “Nós não somos de nós mesmos; portanto, não façamos nosso alvo a busca daquelas coisas que nos sejam agradáveis; nós não somos de nós mesmos: portanto, até onde nos é possível, esqueçamo-nos, e as coisas que são nossas. Por outro lado, somos de Deus: portanto, que a sua sabedoria e vontade presidam sobre tudo que é nosso. Nós somos de Deus: a Ele, como único legítimo alvo, sejam dirigidas nossas vidas em todos os seus aspectos

Calvino sabia da sabedoria que possuía, contudo, era uma característica que era dada pelo divino criador de todas as coisas. Ele (Calvino) compreendia a sua importância que tinha na sociedade de sua época, ele sabia que era homem notável por onde passava, pois nele se via piedade, era homem bom e cheio do temor à Deus, e isso o fazia ser muitas vezes, duro em suas ações perante certas situações que se encontrara. Homem que agia em consonância com a vontade superior à dele, por mais notável que fosse na sociedade de sua época.


2Timóteo 2.15: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que
não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade




*Mauro Ferreira de Souza é Bacharel em Filosofia e Teologia (Universidade Mackenzie), Direito (UNIB), Especialista em Filosofia Contemporânea e Historia pela (Universidade Metodista) e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Mackenzie São Paulo. Doutorando em Filosofia
          Currículo CNPQ:  http://lattes.cnpq.br/6652104071439857


 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

FILOSOFIA DA CIÊNCIA NA FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA

Crise e Mudança O final do século XIX e o início do século XX encontram-se sob o signo de profunda crise filosófica, cujos sintomas são a aparição de movimentos contrários às duas posições mais potentes do pensamento moderno, que são o mecanicismo materialista e o subjetivismo. Esta mudança de situação ultrapassa as fronteiras do campo da filosofia; podemos até compará-la com a profunda crise com que, na época do Renascimento, se iniciou toda a nossa cultura moderna. É sumamente difícil traçar um quadro completo de suas múltiplas e intrincadas causas; todavia, os fatos síio claros: a Europa nessa época é sujeita a uma profunda remodelação do pensamento social, tem de enfrentar graves perturbações econômicas, inovações radicais no domínio da arte e notável revolução em matéria de religião. Aliás, todos concordam em considerar o início do século XX, não já como o final de um breve período, senão como a liquidação de toda uma época histórica muito mais ampla ora conclusa, de sorte que o nosso tempo não pertence mais à chamada era moderna. Também tem sido defendido, e acaso não sem motivo, que esta recente revolução é mais radical do que a que se produziu no Renascimento. Em todo caso, não resta dúvida que se manifesta em todos os setores da vida uma atitude fundamental diferente, e as lutas e guerras, de que temos sido vítimas, têm feito todo o possível para acelerar o processo de decomposição próprio da crise. Apesar destas conexões, o aparecimento simultâneo de movimentos tão diferentes por sua determinação histórica e pelo fim que têm em vista representa um acontecimento sem precedentes na história do pensamento humano. De fato, tais movimentos operam uma transformação completa da filosofia. a- crise da física Newtoniana. A maioria dos filósofos do século XIX considerava a física de Newton como a imagem absolutamente verdadeira do mundo. Viam nela a objetividade da realidade, na qual tudo se reduz às posições e impulsos de átomos materiais (mecanicismo). Supondo que pudéssemos conhecer as posições e os impulsos das partículas materiais num dado momento, acreditava-se que poderíamos deduzir daí pelo cálculo e segundo leis mecânicas toda a evolução anterior e futura do mundo (determinismo de Laplace). Os princípios e até as simples teorias da física eram tidos por absolutamente verdadeiros (absolutismo). O "dado" mais simples parecia ser a matéria, e a este dado simplicíssimo devia ser tudo logicamente reduzido(materialismo). Além disso, a física, a mais antiga das ciências da natureza, encontrara sua confirmação na técnica, e todavia não haviam dado sinais de vida outros ramos do saber, principalmente a história, que deviam florescer no decurso do século XIX. Em fins do século XIX e começos do século XX, principiou a. ser posto em dúvida o valor desta concepção física do universo. Não é exato crer, como sucede a cada passo, que a nova física não conhece mais a matéria, que rejeita em bloco o determinismo, que, via de regra, não admite proposições certas, etc, contudo é certo que muitas coisas, que até agora se acreditava serem absolutamente seguras, se tornaram problemáticas. Assim, por exemplo, não resta dúvida, hoje em dia, que a matéria, longe de ser simples, é, ao invés, extremamente complexa, e que seu estudo científico oferece ainda graves dificuldades. Além disso, parece ser impossível determinar exatamente, a um tempo, a posição e o impulso de uma partícula material, e, em todo caso, o determinismo à maneira de Laplace é indefensável. Se o determinismo em geral já caducou, ou se pode continuar sobrevivendo noutra forma qualquer, é questão que todavia prossegue sendo posta pelos físicos mais eminentes. Eis como se expressava o famoso astrofísico Eddington: "Sou indeterminista da mesma maneira que sou anti-a-lua-é-feita-de-queijo-fresco…; duas hipóteses são estas que não temos nenhuma razão de admitir". Também o mecanicismo admitiu pelo menos novas formas. Whitehead, um dos melhores conhecedores da questão, observa atiladamente que a física antiga figurava o mundo como um prado onde cavalos galopavam em plena liberdade, ao passo que a física nova o representa como um lugar atravessado por uma rede ferroviária na qual os trens percorrem uma via de antemão traçada, e que portanto o novo "mecanicismo" se aproxima muito de uma concepção orgânica da realidade. Enfim, a elaboração da teoria da relatividade e da teoria quântica, bem como outras descobertas da física, puseram em dúvida toda uma série de resultados considerados como absolutamente verdadeiros. Estas transformações operadas na física repercutiram na filosofia de duas maneiras. Do fato de os físicos não chegarem mais a acordo entre si sobre se e em que medida importa manter intactos o mecanicismo e o determinismo e de não se pouparem a esforços para captar’ cientificamente a matéria, que de novo mais e mais se complica, e de terem de admitir a relatividade de suas teorias, resulta que o mecanicismo e o determinismo não podem continuar apelando para a autoridade da física e que a explicação do ser pela matéria se torna sumamente problemática. Vários cientistas eminentes tiraram destes fatos conclusões ainda mais avançadas, uma vez que, tendo em vista os resultados obtidos pela física e biologia recentes, julgam-se obrigados a adotar o espiritualismo, o idealismo e até o teísmo. Citemos tão-somente os nomes bem conhecidos de Sir Arthur Stanley Eddington (1882-1944), Sir James HOPWOOD Jeans (1877-1946), Max Planck (1858-1947) entre os físicos e os astrônomos, e de Sir Arthur Thomson (1801-1933) e John Soott Haldane (1860-1936) entre os biólogos. Contudo, embora seja possível encontrar em suas doutrinas muitos aspectos justos e interessantes, principalmente quando fazem a crítica do materialismo, suas conceituações construtivas são, as mais das vezes, tão caracteristicamente eivadas de ‘diletantismo que os filósofos especializados lhes atribuem muito pouco crédito. Não resta porém dúvida que tais cientistas filosofantes exerceram profunda influência sobre as multidões. Do ponto de vista filosófico, assume grande importância o fato de tais teorias terem podido ser emitidas por eles, pois íbro mostra suficientemente quão distantes hoje estamos da mentalidade do século XIX. Mais importante é todavia a outra repercussão da crise. Pôs ela em evidência não ser possível que a filosofia aceite, sem análise prévia, conceitos e princípios físicos, nem que considere como válidas a priori, desde seu ponto de vista, as conclusões da física. Sem dúvida, Descartes e Kant foram, neste particular, vítimas de um equívoco ingênuo. Por outro lado, por meio destas descobertas a crise da física suscitou o chamado pensamento analítico, que devia ser algo típico na filosofia do século XX. b- A crítica da ciência. A situação acima descrita não é só o resultado de um mero desenvolvimento das ciências. Concorreram também para criá-la diversos pensadores que, muito antes de a crise se desencadear, haviam analisado e em certo sentido posto em dúvida os métodos das ciências da natureza. Decisiva nesta crítica da ciência foi a interferência de filósofos franceses, como émile Boutroux (1845-1921, De la contingence des lois de la nature, 1874; De l’idée de loi naturelle, 1894), Pierre Duhem (1861-1916, primeira obra de importância: Le mixte et Ia combinaison chimique, 1902) e Henri Poincaré (1853-1912, La science et l’hypothèse, 1902). Paralelamente aos esforços desta escola surgem os trabalhos do empiriocriticismo, o qual arrancando de uma posição positivista chega a conclusões ainda mais radicais. Richard Avenarius (1843-1896) publicou entre 1888 e 1890 sua Kritik der reinen Erfahrung (Crítica da experiência pura) e Ernst Mach (1838-1916) trouxe a público em 1900 sua obra principal, na qual faz uma crítica extremamente penetrante do valor absoluto da ciência. A crítica da ciência defrontou-se tanto com o valor das idéias quanto com as teorias científicas. Análises demoradas e Investigações históricas mostraram que umas e outras são em grande parte de natureza subjetiva. O sábio não se contenta com dissecar arbitrariamente a realidade, senão que opera constantemente com conceitos que despontam em sua mente. No que tange às grandes teorias, em derradeira instância elas nada mais são do que instrumentos cômodos para ordenar a experiência: "nem verdadeiras nem falsas, mas úteis" (Poincaré). Note-se que nenhum destes críticos franceses, nem sequer Poincaré, era convencionalista (*). O que eles queriam era a prova de a ciência’ se encontrar muito longe do ideal de infalibilidade que no século XIX comumente lhe era atribuída. Os empíricos criticistas alemães foram ainda mais além e professaram um relativismo muito chegado ao ceticismo. O "convencionalismo" é a teoria segundo a qual os conceitos científicos são fruto de uma "convenção", e, por conseguinte, são "convencionais". Em suma, a ciência perdeu aos olhos dos filósofos grande parte de sua autoridade, e isso contribuiu para acelerar o processo de decomposição aberto pela crise Interna da física. De ora avante não mais seria possível defender a concepção newtoniana do universo, a qual constituía a pressuposição fundamental do kantismo e de todo o pensamento europeu até então. * Texto adptado: Mauro Ferreira

segunda-feira, 15 de março de 2010

DUNS ESCOTO

Duns Scotus


Príncipe da escola franciscana e uma das figuras mais representativas do período áureo da Escolástica (Duns, na Escócia, 1265-1266 - Colónia, 8.11.1308).
I) Vida – Entrou muito jovem na Ordem dos Frades Menores (cerca de 1280). Ordenado sacerdote a 17.3.1291, continuou os estudos de teologia em Oxford (1291-1293) e Paris (1293-1296), onde teve como mestre, entre outros, Gonçalvo Hispano. Tendo regressado a Inglaterra em 1297, lê as Sentenças em diversos centros (studia) da Ordem: primeiro em Cambridge (Lectura Cantabrigiensis conservada no manuscrito 112 da biblioteca comunal de Todi), a partir de Julho de 1300 em Oxford (Lectura I Oxon., que constitui a primeira redacção do Opus Ox. ou Ordinatio) e, finalmente, em fins de 1302 e princípios de 1303 em Paris (manuscrito 66 do Merton College). Recusando-se a subscrever a petição de Filipe, o Belo, contra Bonifácio VIII, é coagido a abandonar Paris e vai continuar a sua carreira docente em Oxford. Em breve, sanado o conflito entre o Papa e o rei, regressa a Paris onde, mediante proposta do ministro geral, Gonçalvo Hispano, de 18.11.1304, obtém o grau de doutor em fins de 1305. De 1305 a 1306 comenta de novo as Sentenças, agora como mestre regente, no Studium franciscano em Oxford (1305-1306) e, em seguida, em Paris (1306-1307). Em fins de 1307, por motivos a que não deve ser estranha a situação provocada pelo processo contra os Templários e a desconfiança a que foram votados nos meios parisienses os defensores da Imaculada Conceição, é enviado para Colónia, onde morre aos 43 anos. O seu corpo repousa na Minoritenkirche dos Franciscanos Conventuais, em Colónia. Sobre o seu túmulo lê-se, a partir de 1870: Scotia me genuit, Anglia me suscepit, Gallia me docuit, Colonia me tenet. Foi honrado, ainda em vida, com o título de Doutor Subtil a que posteriormente se juntou o de Doutor Mariano. Com a doutrina divulgou-se a fama de suas virtudes, sendo-lhe prestado culto público em diversos lugares (Colónia e Nola). O processo de beatificação e canonização foi introduzido em 1905. Escoto legou-nos uma síntese vigorosa e original em cujo seio a razão desempenha papel relevante de acordo com a clássica formulação da philosophia ancilla theologiae. Dessa unidade orgânica é possível extrair os princípios fundamentais que informam e caracterizam o seu sistema filosófico-teológico.

1) Filosofia – Suas principais obras são o Opus Oxioniense (Obra de Oxford), Quaestiones de Metaphysica (Questões de Metafísica) e De Primo Princípio (Do Primeiro Princípio). Um dos grandes contributos de Scot para a história da filosofia, afirmam os historiadores, está no conceito de hecceidade ( haecceitas ). Por esta teoria, valoriza a experiência, e distancia a preocupação exclusivista da filosofia com as essências universais e trancendentes.
O problema da cognoscibilidade dos seres imateriais (metafísica), mormente de Deus, determina e comanda, em grande parte, a especulação filosófica do Doutor Subtil. Poderá a inteligência humana romper os limites da sua finitude e elevar-se até Deus (Ser Infinito)?
As grandes teses sobre o objecto próprio e adequado da inteligência, sobre a univocidade do ser e natureza da abstracção, ao mesmo tempo que estabelecem em bases sólidas a legitimidade da metafísica, constituem resposta original e profunda a um tal problema.
A) Metafísica – a) Noção de ser: Para o comum dos escolásticos, o ser diz-se de tudo quanto existe ou pode existir em realidade. Simplesmente a noção de ser atinge em Escoto um grau de abstracção anteriormente desconhecido. Com efeito, o ser enquanto ser (ens inquantum ens) é concebido na sua pura formalidade, independentemente não só de qualquer determinação categorial, mas ainda dos seus modos intrínsecos (finito ou infinito). Equivale, por isso, a entidade pura e diz-se de tudo o que é inteligível em si mesmo. Absolutamente indiferente à natureza das coisas, constitui, por isso mesmo, uma verdadeira noção transcendental. b) Objecto primeiro e adequado da inteligência: Por um lado, contra os excessos do iluminismo augustiniano (Henrique de Gand) para o qual Deus constitui objecto primeiro da inteligência e, por outro lado, contra as insuficiências do empirismo aristotélico (Egídio Romano, Godofredo de Fontaine) que propõe como tal a quidditas rei materialis, Escoto sustenta, pelo contrário, que o objecto primeiro da inteligência na ordem da adequação ou proporção (primum in ordine adaequationis) é o ser enquanto ser. A ele, com efeito, se acha naturalmente ordenada a intencionalidade da inteligência, enquanto só por ele as demais coisas se tornam inteligíveis. Deste modo o ser, precisamente porque incluído em todas as coisas, define o horizonte ou capacidade operativa da inteligência enquanto é ele que fornece o ângulo
ou perspectiva de acesso ao vasto panorama da realidade. Graças a ele nenhuma realidade é excluída: por ele se transcende o mundo da experiência e se abre caminho para a metafísica e para o Ser infinito.
c) Univocidade do ser: Da tese anterior decorre necessariamente a afirmação da univocidade do ser. Com efeito, o ser é objecto adequado da inteligência porque lhe permite seguir todos os rumos, cobrir todas as distâncias e cinturar, num raio de luz, a realidade inteira, numa palavra, porque predicável identicamente de tudo, de Deus e das criaturas. A univocidade impõe-se, deste modo, como corolário da transcendentalidade e omnicompreensividade do ser. Escoto, porém, forneceu, da mesma, provas mais directas. Para que um conceito seja unívoco, diz, basta que em si mesmo possua tal consistência e unidade lógica que não se possa afirmar e negar ao mesmo tempo da mesma coisa sem que se caia em contradição; por outras palavras: que dele, usado como termo médio de um silogismo, se possa concluir validamente.
Ora é o que sucede precisamente com o conceito de ser, considerado independentemente de qualquer determinação categorial e dos modos intrínsecos. Trata-se de um verdadeiro conceito transcendental que pela indeterminação e simplicidade de conteúdo (compreensão) pode ser dito de tudo aquilo que se constitui e define por oposição ao nada – a sua absoluta simplicidade impede a variação de sentido e confere-lhe um só e mesmo significado. d) Transcendentais: Tudo o que pode atribuir-se ao ser como tal, anteriormente à sua diversificação categorial, constitui, como ele, uma noção transcendental e entra, por isso, nos domínios da metafísica. Escoto distingue três classes de transcendentais: aa) transcendentais convertíveis (passiones entis: unum, verum et bonum); bb) transcendentais disjuntivos (finitoinfinito, necessário-possível, acto-potência e semelhantes); cc) transcendentais que significam perfeições puras, isto é, que de si mesmas não evocam qualquer imperfeição (sabedoria, vontade, inteligência), etc. Nenhum dos transcendentais acrescenta qualquer novidade ao ser; o seu papel consiste em traduzir um aspecto, uma modalidade de ser.
Assim, os modos transcendentais de finitude e infinitude não são ditos do ser in quid, mas só in quale, porquanto não modificam a essência do ser, apenas denotam a sua intensidade; são, portanto, modos intrínsecos da realidade. Em resumo, a metafísica de Escoto tem como objecto o conceito comuníssimo (unívoco) de ser, a que se vêm juntar, enriquecendo-o, os transcendentais. Estes e, de um modo especial, os disjuntivos conduzem-nos ao conhecimento de Deus – meta última da metafísica escotista. Demonstrada a existência de Deus, as perfeições simples ou puras permitem-nos aplicar-Lhe outros atributos. e) Distinção formal: Os seres concretos são integrados de elementos metafísicos os quais, embora idênticos numa mesma res, possuem fisionomia
própria. Estas entidades ou realidades concorrentes numa mesma res realizam a distinção formal ou, melhor, a não-identidade formal, anterior a qualquer consideração por parte da inteligência (por exemplo, entre o ser e os transcendentais convertíveis: unum, verum et bonum; entre a alma e as suas potências e estas entre si).


Qual a Importância de Scotus?
Scotus vive em um contexto desafiador e, ao mesmo tempo, extremamente fecundo. O século XIII, no qual também viveram Tomás de Aquino e Boaventura, é atravessado por duas trajetórias filosófico-teológicas bem definidas: agostiniano-boaventuriana e aristotélico-tomista. E uma única matriz polêmica a provocá-las e animá-las: o ingresso das obras de Aristóteles na universidade de Paris.
Nesse contexto, Scotus assume uma postura crítica face aos pressupostos e às principais posições defendidas por ambas as escolas, revelando-se como um pensador original. Destaca-se pela fina acribia em bem discernir, o que lhe possibilitou dissipar inúmeras confusões e esmerar-se na especulação acerca das questões filosóficas e dos mistérios da fé. O Doutor sutil se caracteriza, ainda, por um raciocínio deveras singular capaz de, num cerrado diálogo com seus interlocutores, desconstruir seus argumentos e forjar conceitos e linguagem novos cada vez mais precisos e inclusivos. Com Scotus, talvez o pensamento cristão tenha atingido o mais alto vértice da especulação.
Para Sidney Silveira Duns Scoto é considerado como pai da Modernidade. Este artigo mostra como a filosofia de Duns Scoto, contrariando a filosofia de São Tomás abriu as portas para todos os erros da Modernidade, especialmente para a filosofia modernista de Maurice Blondel e a abstrusa Fenomenologia de Husserl que tanto influiu no Concílio Vaticano II.
No século XIV, o frade franciscano Duns Scot refunda a metafísica, ao adotar critérios tão inovadores, tão sutilmente contrapostos à metafísica clássica (refiro-me, sobretudo, à aristotélica e à tomista), que na verdade parece tratar-se de outra ciência. Quem o diz não sou eu, mas o professor emérito da Universidade de Bonn, Ludger Honnefelder — um dos maiores e mais respeitados estudiosos da obra de Duns Scot nas últimas décadas, no cenário internacional.
Em seu conjunto, essa “refundação” scotista abriu, a meu ver, os seguintes flancos para os pensadores dos séculos seguintes: Intuicionismo em gnosiologia. Uma das teses de Duns Scot é de que, no estado de natureza instituída por Deus (ou seja, o estado adâmico), o homem conhecia os inteligíveis diretamente, numa espécie de clara visão das essências. Sendo capax totius entis, o intelecto teria — inscrita entre as suas possibilidades metafísicas — a intuição direta dos inteligíveis. E mais: ainda de acordo com o Doutor Sutil, o homem voltará a ter esse tipo de cognitio intuitiva no estado de bem-aventurança — na visão beatífica. Ora, retire-se daí a premissa teológica, e cairemos na tese husserliana de que conhecemos a essência dos entes por intuição direta. Como se fôramos anjos... Curiosamente, ao propor a estrita separação entre teologia e metafísica (e, conseqüentemente, gnosiologia), Scot parte de uma concepção, ou melhor, de uma pressuposição... teológica!
Separação entre fé e razão. Duns Scot traça uma rígida e intransponível linha divisória entre o conhecimento estritamente racional e o conhecimento a que a razão pode chegar sob a luz da fé (sub lumine fidei). Ele distingue a filosofia primeira, que tem como objeto o ente segundo a entidade (entis secundum suam entitatem), da teologia ou ciência dos beatos (scientia beatorum), que estuda Deus a partir da Revelação, e que é chamada por Scot de “nossa teologia” (theologia nostra) — que o Doutor Sutil não classifica como ciência (a meu ver, por não aplicar a ela a distinção tomista entre evidência quoad se e evidência quoad nos). Perde-se, aqui, a noção de que a filosofia é “serva da teologia” (ancilla theologiae), já que se trata não de dois conhecimentos complementares e harmônicos (sendo a filosofia subalternada em relação à teologia, como em Santo Tomás), mas estanques, independentes um do outro.
A partir daí, a história da filosofia mostra muito bem qual foi a senda aberta com a “refundação” scotista — sobretudo com a separação entre teologia e metafísica: crescente afastamento entre fé e razão (a primeira logo cairá no pietismo de vários tipos, já que Deus deixará de ser objeto do escrutínio da razão, e a segunda soçobrará no racionalismo de variados matizes); esvaziamento paulatino da metafísica, até a sua “destruição” em Kant e, logo depois, queda nos materialismos os mais abstrusos, já no século XIX (talvez o mais antimetafísico de toda a história da filosofia).

Scotus é ainda Atual?
Scotus é filho daquele período plasticamente descrito pelo grande historiador Huizinga como “outono da Idade Média”. Fruto maduro daquela fecunda estação, ele sorveu no melhor dos modos a mais genuína seiva que corria pelos veios mais profundos dos sulcos de então, situando-se, para todos os efeitos, entre a Idade Média e a Modernidade. O “nosso tempo” parece marcado pela experiência da dissolução dos grandes sistemas, pela deslegitimação das grandes narrativas, pelo desencanto diante dos grandes projetos construídos sobre a razão, que parecia constituir um sólido alicerce. Chega-se a falar em pós-Modernidade como termo apto a exprimir o total desencanto face aos projetos totalizantes e por demais pretensiosos da Modernidade. Denominador comum a todos os projetos da Modernidade seria propriamente a “epistemologia forte”: racionalista e naturalista. No entanto, poder-se-ia dizer que a Modernidade nasce e se desenvolve num viés oposto àquele inaugurado e proposto por Scotus, em fins do século XIII e inícios do século XIV. Talvez seja essa a razão do crescente interesse, perceptível em nossos dias, por Scotus e seu pensamento.
Mauro Ferreira (trabalho apresentado na Universidade Presb. Mackenzie)


BIBLIOGRAFIA

CHÂTELET, François. História da Filosofia - A Filosofia Medieval. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1983.
De Boni, Luis Alberto (Org.), João Duns Scotus (1308-2008). Homenagem descotistas lusófonos, Porto Alegre / Bragança Paulista, ediPUCRS, 2008.
DUNS SCOT. Seleção de textos. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1985.
FERRATER MORA. Diccionario de Filosofia. México: Editora Atlante, 1944.
SILVEIRA, Sidney - "Duns Scot: o ancestral da modernidade". http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=historia&artigo=duns_scoto&lang=bra Associação Cultural Montfort.

domingo, 28 de fevereiro de 2010


Ingenuamente, alguns estudantes de Introdução à Filosofia falam de
Descartes como um pensador ateu, quando se restringem à declaração
fundamentalista do “penso, logo, existo” sem ter conhecimento
do encadeamento lógico do seu pensamento, assim como é costume,
no senso comum, fazer-se uma associação entre filosofia e ateísmo ou,
num sentido inverso, estabelecer uma incompatibilidade entre Filosofia e Teologia, Ciência e Religião e Fé e Razão. Por isso, dissipando essas
ingenuidades, o estudo cartesiano quer revelar que a obra de sua filosofia traz
o conceito de natureza misturado aos conceitos de Deus e de Homem.
Pois, ao buscar as idéias claras e distintas, ele deseja captar as verdades
eternas do Ser, que implica o projeto de pensar Deus, a Natureza
e o Homem.
René Descartes (1596-1690) filósofo, físico, matemático
é o criador do conhecimento fragmentado. Mas como pode ser inferido,
de forma geral, tal pensamento, se o Filósofo visava a abarcar
tudo o que a res cogitans pudesse intuir e chegar às idéias claras e
distintas a partir da percepção das verdades eternas na res extensa? É
certo que a única substância privada, não extensa e indivisível, é o
pensamento, e, se este incide sobre a matéria, que é pública, extensa e
divisível, ele pode fragmentar, analisar, enumerar e sintetizar toda sorte
de corpo a fim de ter a compreensão de sua natureza. Esse método
analítico usado por Descartes fora herdado dos filósofos geômetras
gregos e visa, preferencialmente, a ser o caminho perfeito para a pesquisa
científica – a sua física filosófico-teológico-experimental demonstra
ser o elemento fundamental do seu sistema. Por isso, a resposta à
pergunta consiste na existência da res infinita. Pois o Deus cartesiano
é o postulado para a unificação do saber humano.